Ler agora é Chic
Livros são o acessório do momento quando o assunto é tendência fashion. Mas quem os carrega, o faz para ler ou apenas mostrar que lê?

Para quem sempre gostou de ler e sempre teve livros como acessório sempre presente na bolsa, pode achar estranho, mas agora isso é moda. A trend chamada de “Literary Chic” e o “PoetCore” como opção na hora de se vestir tem sido pauta recente de marcas de luxo como a Dior, a Miu Miu e a Coach.
A febre do Literary Chic saiu do campo das ideias e virou produto físico de luxo. O livro não é mais apenas um hábito, é o novo acessório de status. Para fazer parte desse universo e faturar com a “aura intelectual” do ato de ler, a Dior lançou a coleção “Book Cover” (a grife francesa levou o nome de sua icônica bolsa, a Dior Book Tote, ao sentido mais literal possível com o lançamento dessa coleção).
Sob a direção criativa de Kim Jones, a marca redesenhou a clássica bolsa de lona estruturada (além de camisas, carteiras e até pratos de porcelana) estampando artes inspiradas em capas de livros clássicos como Drácula, de Bram Stocker.











Já a marca americana Coach lançou em deus desfiles, bolsas que tinham livros (de verdade) como bag charms. São miniaturas com capa de couro contendo obras reais, como clássicos de Maya Angelou e o romance Little Fires Everywhere. Celebridades como Bella Hadid e Elle Fanning foram vistas usando os chaveiros literários presos em suas bolsas Tabby.




A Miu Miu levou a tendência além dos produtos físicos, criando um verdadeiro clube literário internacional chamado “Politics of Desire”. Eles organizam salões literários em Milão focados em discutir obras de autoras consagradas (como a vencedora do Nobel Annie Ernaux e Ama Ata Aidoo). Nos desfiles, a marca tem promovido o visual “bibliotecária geek” (geek-chic), com óculos de grau marcantes, saias plissadas e cardigans.
Olympia Le-Tan é a marca pioneira absoluta do conceito. Ela ficou famosa mundialmente por suas bolsas clutch que são réplicas exatas de capas de livros clássicos (como O Grande Gatsby ou Drácula), feitas à mão com bordados detalhados em feltro. Elas se tornaram itens de colecionador altamente cobiçados no tapete vermelho.
Há quem acredite que em uma era saturada pelo digital, carregar um “charme” de livro ou uma bolsa que simula a capa de um clássico é uma forma de expressar personalidade, ou um aviso de que “eu evito telas, leio livros“. Quase como uma sinalização de virtude, onde se quer evidenciar que valoriza o analógico, a arte e o intelecto.



Essa estética é agradável e até “poética”, mas um tanto deprimente ver alguém querer parecer algo que não é, simular uma intelectualidade que nitidamente é superficial. Por que mais importante do que PARECER LER LIVROS, é LER de verdade, sem encenações. Sem precisar que o mundo veja “olha, estou lendo, olha como sou uma pessoa culta”.









Ao mesmo tempo em que os clubes de leitura liderados por famosos se proliferam, existe algo que precisa ser questionado: as obras em questão são realmente relevantes? São leituras dignas de quem vende uma imagem intelectualizada? Pois muito se falou na última semana da biblioteca de livros proibidos/censurados em diversos países que a cantora pop Dua Lipa montou na Livraria Lelo em Lisboa. E se você olhar a lista, bem, poucos se encaixam na proposta. Com vários títulos disponíveis para comprar na Amazon, e alguns vários outros que deveriam constar, mas não fazem parte da seleção dela.
Há quem defenda que “carregar” um livro para qualquer lugar que você for, estimula a leitura. Que a trend Literary Chic realmente tem tornado mais pessoas leitoras. Eu sou daquelas que sempre me senti estimulada a ler quando tive acesso fácil aos livros. Por isso deixo aqui a minha pergunta: você sente vontade de ler por ver pessoas lendo, por ver uma pessoa famosa carregando ou recomendando um livro? Me contem aqui por favor!

Related Posts
Cura pelos Clássicos de Ficção: O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald



